Autora: Antônia Hodgson
Nota: 7.5
Recomendado: Sim
Páginas: 646
Gênero: Fantasia
Parte de uma série: Sim
Estou com preguiça, nao quero ler tudo
A humanidade erra com frequência, e os deuses já desceram dos céus para ajudar sete vezes. Se voltarem mais uma, o mundo acaba. Agora é hora da gincana do festival entre os povos do reino para escolher a nova pessoa governante, e sete candidatos competirão pelo trono.
A protagonista é a chefe dos nerds do imperador, que está organizando o festival e está prestes a ter uma semana muito, muito ruim. Se você não gosta de plot twists, evite este livro.
Análise (Com alguns spoilers)
Não é comum encontrar histórias com mulheres negras em papel de protagonismo, apesar dos valentes esforços de autoras como Chimamanda Adichie, Octavia Butler e Nnedi Okorafor. Menos comum ainda são histórias em que essas mulheres estão em posições de poder. The Raven Scholar começa surpreendendo ao trazer exatamente isso.
O livro abre com Yasila: mãe, princesa, feiticeira, tendo que engolir uma atrocidade contra sua família cometida pelo império no qual habita. Imediatamente vem a promessa de horror e vingança e a ideia de que Yasila vai causar caos no futuro, mas o foco do livro não é ela, e sim uma escriba imperial, Neema, que redige e assina a ordem para que se execute tal atrocidade e com isso ganha uma enorme promoção.
Vale dizer que não uso “atrocidade” em vão; é realmente algo pavoroso feito contra uma mulher muito jovem, o que contrasta bastante com o clima inicialmente estabelecido de império próspero e pacífico. Por outro lado, não há na história humana um caso de prosperidade sem sangue inocente, não é mesmo?
O livro passa a seguir a vida de Neema, agora chefe dos nerds do império, responsável por burocracias e papelada chata que ninguém gosta, e aí a coisa já começa a desandar. A autora faz muito esforço para pintar Neema como uma personagem com problemas sociais desde a juventude, rejeitada e desprezada por todos, que só se dá bem com os livros e as normas. Porém, em todas as interações ela é querida e bem tratada, interagindo com perfeição com todos os demais personagens, do rato de rua mais baixo ao próprio imperador.
Esse é, aliás, o ponto fraco do livro: todos os personagens são um pouco caricatos e simples demais, muitas vezes usados apenas como um motor para o roteiro andar.
O império em si faz sentido. Inicialmente parece algo quase utópico, e é muito legal ler sobre a dinâmica social dos monastérios e da religião dos Oito. Porém, por trás dos panos, é completamente influenciado e gerido por meia dúzia de famílias nobres e por burocratas sociopatas, esmagando as boas intenções de quem tenta desafiar o status quo.
A prosa da autora funciona muito bem, transmitindo falsas sensações sobre o mundo e sobre os personagens, e invertendo isso lentamente no curso da narrativa, ainda que de forma um pouco infantil. E, sinceramente, tudo bem. Funciona. O livro é bem divertido de ler, e claramente houve mais uma preocupação com a diversão do que em criar personagens perfeitamente verossímeis.
A cada 24 anos o imperador ou imperatriz atual renuncia e ocorre um evento onde membros representando cada um dos sete monastérios competem (um para cada deus, menos o Dragão, que não participa). No livro, o evento é uma grande gincana com várias provas; quem pontuar mais ganha o trono. A Neema, previsivelmente e contra sua vontade, acaba representando o Corvo. Traz uma sensação de estar assistindo ao programa do Gugu, com um mix de Torneio do Poder de Dragon Ball, e eu amei.
Há um ponto de enredo que é um mistério de assassinato, mas que fica tão em segundo plano que veio parar aqui no fim do texto. Mais importante que isso, há plot twists. MUITOS plot twists. Enquanto o torneio se desenrola e Neema tenta se manter viva, chega um ponto em que a quantidade de reviravoltas parece implausível, mas a prosa funciona tão bem que as coisas se encaixam e o livro segue sem perder muito o fôlego até quase o final.
Aí tem uns vários probleminhas, sinceramente, mas nada que invalide a obra em si e que eu espero que sejam explicados nos próximos livros. Ainda que não seja exatamente um deus ex machina, há múltiplos casos de “o livro é meu, faço se eu quiser”: eventos místicos incríveis sendo resolvidos em duas páginas, personagens saindo das sombras para fazer a história seguir em frente, etc.
A única coisa que me incomodou de fato é que o livro parece muito adulto em temática, mas soa o tempo todo como uma fantasia Young Adult. De toda forma, li em uma semana e me diverti muito. Aguardo os próximos, embora receoso, porque tem muita margem para ser muito ruim se a autora perder a mão.