Para onde foram os carros coloridos?

Uma vez perguntei para minha mãe se ela também percebia que os carros coloridos estavam sumindo. Até princípios dos anos 2000 era comum ver carros coloridos pelas ruas, alguns de cores curiosas. Atualmente, vemos apenas cinzas, brancos e pretos por todos os lados.

Nas cidades, cada vez mais vejo casas que parecem ter saído diretamente de Minecraft: quadradas, lisas e sem cor.

Procuro roupas nos shoppings e olhe, ali! Uma nesga de esperança no meio de cores neutras? Ah, não, era apenas um bege mais animado.

Não é a toa. Há quem diga que os carros mudaram porque assim ficam mais baratos e rápidos de produzir e, consequentemente, fica mais fácil para o capitalista lucrar. Outras fontes demonstram que, embora talvez seja cedo para dizer — dado que carros são uma invenção recente — como quase tudo no mundo, as cores de carros têm ciclos. Começaram com o preto dos Ford T, chegaram ao ápice da cor entre os anos 1960 e 1980 e agora retornam ao básico.

Na arquitetura, entre todas as pessoas com quem falei sobre o tema, é consenso que a arquitetura moderna é horrenda. Este post do Reddit traz uma ótima discussão sobre os porques, desde a adoção de novos materiais ao avanço do capitalismo tardio e à perda de simbolismo na sociedade.

Nas roupas, nas cidades, na arte, tudo muda para estéticas cada vez mais padronizadas, das quais, aparentemente, muita gente não gosta.

Mas, se ninguém gosta, por que tudo tem sido feito assim? E, mais importante, por que, como sociedade, não reagimos?. Não vou duplicar o que foi dito no link acima, mas caso opte por não ler, o resumo é que há um intenso processo filosófico e ideológico no Ocidente que desestimula a cor, o “excesso” e a extravagância existencial desde a Antiguidade.

Desconectados dos ciclos

Ah, a Idade Média! Esse lindo e salubre momento histórico. Você, camponês, deseja uma nova roupa. Tem moedas na sua magra bolsa? Não? Fez curso de corte e costura? Não? Vai ter que encontrar alguém que o tenha feito e fazer escambo de uma das suas parcas posses.

As camadas mais pobres da sociedade produziam as suas próprias roupas, móveis, armas e casas inteiras. Claro que a situação variava imensamente ao redor do mundo, mas ao contrário do que eu imaginava ao começar (fonte: vozes da minha cabeça), havia muitos objetos em casas não-nobres, como pode ser visto neste inventário de bens de detentores de terra na Yorkshire rural da Idade Média e neste ótimo artigo que mostra a evolução das posses domésticas ao longo do tempo na Europa.

E isso era ótimo do ponto de vista de produzir coisas mais bonitas e duradouras. Se só consegue ter duas camisas, é melhor que sejam esteticamente agradáveis e durem a vida toda — e, de preferência, a dos seus filhos e netos também.

O fluxo de trabalho era muito mais horizontal; um camponês fazia tudo, desde escolher as sementes até colher e processar a colheita para consumo e venda. No entanto, o tempo passa, o processo fabril chega e, como disse Marx:

“…a manufatura, na maioria das suas formas, não adequa, de maneira adequada, o trabalho a cada operário. Ela deixa o trabalhador como artesão, que domina o processo de produção, mas que se vê, através da divisão do trabalho, como um operário parcial.”

Esta quebra do processo, que hoje se manifesta em funções hiperespecializadas, desconecta o trabalhador da terra e dos seus ciclos de existência, isolando-o dentro da sociedade em múltiplos níveis. E é inevitável que isso aconteça cada vez mais.

O capitalismo, enquanto sistema, precisa quebrar e isolar o indivíduo para que se possa perpetuar por meio da barbárie, do horror, da exploração e da destruição ecológica.

No distópico capitalismo tardio de 2026, ninguém tem força para resistir.

A estética torna-se uma massa indistinta: formas sem detalhes, sem cor e sem alma. Um conjunto homogêneo de pessoas que só brilham ao refletir a luz das telas.